quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Racismos Sociais - Parte III "Mulheres iranianas"

No Irão – onde a tradição xiita tem algumas semelhanças com o fundamentalismo dos “haredim” (as mulheres ultra-ortodoxas rapam a cabeça e usam perucas tapadas com lenços, porque também consideram que “o cabelo é pecaminoso”) –, foi anunciado que o principal construtor nacional de automóveis vai produzir um veículo exclusivamente feminino.
O novo carro terá caixa automática de velocidades, sistema electrónico de apoio ao estacionamento, aparelho de GPS, macaco de socorro para ser mais fácil mudar rodas e alarmes indicadores de pneus vazios. Os bancos traseiros terão ainda um sistema audiovisual para entreter as crianças.
Muitos veículos de luxo já hoje oferecem estes “extras”, mas a viatura da Iran Khodro – que será lançada em Junho para coincidir com o “dia iraniano da mulher” – irá distinguir-se pelos “interiores de materiais coloridos e confeccionados segundo o gosto das condutoras”.
Inicialmente, este carro será apenas vendido no Irão, mas poderá ser exportado também para a Síria e Venezuela.
Aumenta assim a segregação num país onde está, igualmente, em discussão um modelo de bicicleta que esconda as pernas e a parte de cima do corpo da mulher. No Irão, embora as mulheres possam conduzir carros (o que não acontece na Arábia Saudita), só têm licença para circular em motorizadas como passageiras. Nos autocarros, há uma divisória que as separa dos homens. E, recentemente, foi criado um serviço de táxis só para elas.

Racismos Sociais - parte II "Mulheres haredim"

Noticiada pelo diário hebraico “Yedioth Ahronoth”, o fanatismo de judeus ultra-ortodoxos, “que para salvaguardar a castidade, colocam a lei de Deus acima do estado de direito”. Nas últimas semanas, “patrulhas da modéstia” – semelhantes à “polícia de prevenção do vício e promoção da virtude” em países islâmicos – foram acusadas de assaltar casas para agredir mulheres por “usarem blusas vermelhas” ou “conviver com homens”. Também atearam fogo a armazéns que vendem aparelhos de acesso à Internet e leitores de MP4, “para evitar que os devotos façam ‘download’ de filmes pornográficos”.
A romancista, dramaturga e jornalista israelo-americana Naomi Ragen, uma judia praticante que tem abordado o mundo problemático das mulheres “haredim” (literalmente, tementes a Deus), lamenta o aparecimento destes “vigilantes com olhos e ouvidos em toda a parte, muito parecido com o que se passa no Irão”.
Isto agrava o antagonismo entre a comunidade ultra-ortodoxa (600 mil almas) e a maioria secular de Israel. O “Yedioth” nota que, embora muitos judeus ultra-ortodoxos se declarem escandalizados com a violência, os extremistas sentem-se protegidos por rabis, que aprovam estas acções para assegurar a reputação de guardiões da fé.

Racismos Sociais - parte I "Mulheres sauditas"

Entre as muitas restrições a que estão sujeitas as mulheres na Arábia Saudita poderá juntar-se mais uma: quando saírem à rua, se não usarem um lenço que lhes oculte todo o rosto, só poderão mostrar um olho. É o que determina uma “fatwa” (édito religioso) proposta pelo xeque ultraconservador Muhammad al-Habadan, defensor de “um reforço das regras da modéstia”.
Para o xeque, que respondia a dúvidas de ouvintes no canal de TV por satélite al-Majd, “a revelação dos dois olhos encoraja as mulheres a usar maquilhagem [que é proibida] e atrai demasiada atenção, o que é um comportamento corrupto, em conflito com os princípios islâmicos.”
Como fazer então a vida diária apenas com visão parcial? Explica o xeque, muito popular entre os crentes masculinos: “Quando forem às compras, as mulheres poderão retirar totalmente o pedaço de tecido que tapa um dos olhos para poderem usar os dois... num limitado período de tempo.”
As novas directrizes, aparentemente, ainda não em vigor no reino onde nasceu Osama bin Laden e onde impera a rígida doutrina islâmica do wahabismo, confirmam as conclusões do último relatório das Nações Unidas sobre a condição feminina nas sociedades muçulmanas nos últimos cinco anos: a Arábia Saudita é o país onde as mulheres têm menos direitos – nem sequer o de usar saltos altos.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Racismos Sociais - Parte IV "imigrantes"

O vereador da Câmara de Lisboa José Sá Fernandes mandou retirar um cartaz do Partido Nacional Renovador (PNR) com a frase «Imigração? Nós Dizemos Não!», colocado em Entrecampos. O líder do PNR, José Pinto-Coelho, disse que vai apresentar uma queixa-crime contra o vereador por considerar que o autarca não tem legitimidade para mandar retirar um cartaz do partido. in Publico, 07-10

Este cartaz é uma copia do cartaz usado na Suiça pelo Partido União Democrática de Centro (UDC) - ultra conservador e xenofabo! Foi graças a este cartaz e às ideias bem vincadas de expulsão dos estrangeiros da Suiça que este partido acabou por ganhar as eleições em 2007. Informava, na altura, o semanário alemão Der Spiegel: "A democracia defendida pela facção permite, porém, uma campanha movida por lemas xenófobos, cujo cartaz mostra três ovelhas brancas dando um chuto para expulsar uma ovelha negra. As ovelhas brancas são, por analogia feita pelo partido, os suíços; e a ovelha negra, o estrangeiro. Logo de seguida, o NPD (partido alemão de extrema direita) em Hessen adaptou o cartaz, para usar nas próximas eleições estaduais".
Assim, em Portugal os nada originais e nada criativos pseudo-nazizinhos de bolso, para não dizer "de merda", que se intitulam nacionalistas renovadores montaram este cartaz racista...



quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Senado dos EUA aprova plano rectificado de injecção de 700 mil milhões de dólares

As acções dessas empresas com má gestão (ou gestão fraudulenta) vão ter como referência a data da aprovação dessa injecção monetária à custa dos contribuintes, ou pelo contrário vi deixar-se que as acções subam especulativamente (mais uma vez) e depois o Estado compra essas acções inflacionadas. O contribuinte americano então perderia três vezes: 1ª porque pagou preços de monopólio; 2º porque pagou as fortunas dos gestores e accionistas dessas empresas; 3º porque comprou acções inchadas!
O Plano Paulson ainda não está aprovado. Não há a certeza que a Câmara dos Representantes tenha a mesma opinião que o Senado. Mas mesmo que vote favoravelmente, (que vai) não vamos saber porque alterou a posição. As razões não serão públicas, serão favorzinhos que ficarão lá entre eles. Os contribuintes americanos irão pagar 10000 dólares por família para que Wall Strett não vá à falência. Os contribuintes americanos irão pagar 10000 dólares por família para continuarem a pedir empréstimos à banca!! Lucros para poucos, prejuízos para todos. Capitalizar os lucros, socializar os prejuízos. O capitalismo na sua máxima força.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Raizes da crise - Parte II

A crise imobiliária está a caminho de se transformar em crise bancária e em crise simplesmente. Os bancos fabricaram caixinhas surpresa (a titularização) colocando lá créditos duvidosos e particularmente as dívidas das famílias americanas pobres (os subprimes), burladas por contratos enganadores. A sua falência provocou uma perda de confiança generalizada sobre o valor destes títulos, dos quais ninguém conhece verdadeiramente a composição. Tudo isto é evidentemente o resultado da avidez inextinguível de uma finança desenfreada.

Mas o que é que permitiu, no fundo, este fenómeno da financiarização? Se procurarmos seguir o conselho de Marx de não ter apenas em conta a superfície das coisas, a resposta encontra-se na baixa universal do peso dos salários. Um pouco por todo o mundo, a parte das riquezas que os trabalhadores (que as produziram) recebem baixa desde há pelo menos 20 anos. É um facto estabelecido e reconhecido tanto pelo FMI como pela Comissão Europeia. Qual a relação com a finança? É a seguinte: esta mais-valia que aumenta mais depressa que o rendimento nacional, não é mais investida como antes, e a contrapartida da baixa da parte salarial é portanto um crescimento rápido da mais-valia não acumulada. Que lhe acontece? É distribuída a uma pequena camada de proprietários e de pseudo-assalariados à procura de colocações que poderão fazer frutificá-la de novo. Daí uma enorme superabundância de liquidez e de capitais financeiros que reivindicam rendimentos cada vez mais extravagantes.

Ao fim de algum tempo, a finança autonomiza-se, dito de outra forma desenvolve-se segundo a sua própria "lógica". Esquece que o volume de valor disponível depende do grau de exploração e que este não pode, apesar dos esforços dos capitalistas, crescer de forma exponencial. As crises financeiras são, por conseguinte, manifestações periódicas da lei do valor. Depois das ilusões da "nova economia", são as ilusões dos novos produtos financeiros que acabam por desaparecer no fumo das perdas bancárias.

As recomendações pregando uma melhor governança, uma maior transparência, etc. não têm nada a ver com os delírios inventivos de uma finança deliberadamente fora de qualquer controlo. Quanto aos bancos centrais, eles não hesitam a travar a economia aumentando as taxas de juro cada vez que surge a ameaça de um aumento excessivo dos salários. Nenhuma piedade para os proletários! Mas quando surge um risco de crise financeira, não hesitam um instante a injectar massas enormes de liquidez para tirar de apuros os bancos com dificuldades. Dois pesos, duas medidas: os bancos centrais são instrumentos de gestão dos interesses dos proprietários.

A natureza de classe dos fenómenos em questão devia meter-se pelos olhos dentro: o dinheiro que os proprietários jogam neste casino, é o que foi extorquido, para além de qualquer medida, aos assalariados do mundo inteiro. Mas são também eles que vão sofrer as consequências: para apagar as perdas vai ser necessário sanear a economia à sua custa, travando o crescimento, aumentando as taxas de juro e usando as perturbações actuais da economia mundial como pretexto para baixar ainda mais os salários.

O capitalismo entrou assim numa zona de tempestades porque o frágil equilíbrio da economia mundial está hoje à beira da ruptura. Os Estados Unidos dificilmente podem fazer financiar um défice comercial abissal pelo resto do mundo ou pretender reduzi-lo graças à queda sem fim do dólar, sem que isto faça rebentar as crescentes tensões com a China e a Europa.

Estamos aqui confrontados com a deriva de um "capitalismo puro" liberto das suas cadeias, capaz de impor um crescimento ininterrupto da taxa de exploração. Mas é ao mesmo tempo o seu calcanhar de Aquiles. Para sair suavemente da situação actual será necessário de facto que as principais economias se reorientem para a procura salarial, o que suporia uma repartição dos rendimentos mais favorável aos assalariados. Mas os capitalistas dispõem, graças à mundialização, de uma relação de forças de tal forma favorável que não têm nenhuma razão para enveredar espontaneamente por esta via. texto de Michel Husson, economista francês e investigador no IRES (Instituto de Investigação Económica e Social)

Igreja de S. Reagan

Aqui fica um curto esboço de história da financeirização do capitalismo anglo-saxónico dos últimos trinta anos.
«Tudo começou» com a decisão de abolir o controlo do movimento de capitais. Reino Unido, governo conservador de Margaret Thatcher, 1979. Rapidamente seguido pelos EUA de Reagan. A partir daqui geraram-se as forças que criaram um plano inclinado. Iniciou-se um processo de transformação que ficou conhecido pelos três D’s.

Desregulamentação, ou seja, abolição de muitas das restrições à acção dos agentes financeiros, que passam a dispor de uma margem de manobra muito maior. Tudo no quadro de sistemas de regras nacionais cada vez mais «leves» e que procuram fomentar a auto-regulação, a concorrência e a inovação financeira, ou seja, a criação de produtos financeiros cada vez mais sofisticados e complexos. É preciso ser atractivo para os investidores internacionais. Que agora podem escolher. Só os «economistas antigos» é que ainda falam de especulação.

Desintermediação com a correspondente mudança do negócio bancário que passa da monótona e mais controlada intermediação financeira para a excitante apropriação de comissões com a montagem de operações financeiras crescentemente especulativas, arriscadas e potencialmente lucrativas. Entre estas inclui-se a, até há pouco aplaudida, titularização de créditos, na origem da crise. Através desta, os instrumentos tradicionais de dívida resultantes da intermediação financeira – empréstimos e hipotecas, por exemplo – são convertidos em títulos negociáveis e até podem sair dos balanços dos bancos. Tudo legal e óptimo porque se criam novos produtos e novos fontes de lucros. Todos ganhamos. Não é?

O último D é de descompartimentação, ou seja, da abolição das fronteiras entre os vários tipos de instituições financeiras e de mercados. Muito mais concorrência entre grandes e opacos conglomerados financeiros. Tudo óptimo. Tudo construído políticamente. A política dominante diz: «os «mercados é que sabem».

A actividade das instituições bancárias foi assim profundamente modificada pelo fim do controlo governamental da generalidade das taxas de juro, pela abolição das restrições quantitativas sobre o crédito e sobre os investimentos realizados pelos bancos e pela remoção das barreiras institucionais e geográficas entre os bancos, outras instituições financeiras e os investidores institucionais. Os EUA e o Reino Unido estiveram sempre na vanguarda destes processos políticos. Estas desregulamentação e descompartimentação culminaram, nos EUA de Clinton, com o fim por decreto (sempre por decreto...) da tradicional distinção entre bancos comerciais e de investimento. Esta última medida aboliu uma das principais regras que vinha do New Deal.
Em 1998, John Williamson e Molly Mahar, dois economistas com credenciais impecavelmente liberais, fizeram um balanço histórico das políticas financeiras dominantes desde os anos 80 à escala internacional. Sistematizaram-nas em seis dimensões essenciais: (1) eliminação dos controlos de crédito; (2) desregulamentação das taxas de juro; (3) acesso, com restrições cada menores, ao sector financeiro em geral e ao sector bancário em particular e maior concorrência; (4) muito maior autonomia bancária, apenas restringida por uma regulação e supervisão publicas de natureza prudencial; (5) propriedade privada dos bancos; (6) Liberalização dos fluxos internacionais de capitais. A Europa não escapou. Pelo contrário. A Comissão Europeia não patrocinou outra coisa.

Aqui está o problema. Chama-se neoliberalismo. E foi a engenharia dominante do nosso tempo. Os resultados estão à vista. A alternativa é a questão. É uma contra-engenharia. Contra estes «mercados». Para uma próxima posta. texto de João Rodrigues in ladroesdebicicletas

Um dado ilustra a conjugação de medíocre crescimento dos rendimentos e de injustiça social, indissociáveis da configuração de capitalismo sob hegemonia da finança de mercado que emergiu nos EUA, a golpes de política, a partir dos anos setenta: entre 1947 e 1973, época de consenso keynesiano, de contra-poderes sindicais fortes e de mercados muito mais limitados e politicamente enquadrados, o rendimento das famílias mais pobres (20% da população) cresceu, em termos reais, aproximadamente 116,1% e o rendimento das famílias mais ricas (20% da população) cresceu 84,8%; entre 1974 e 2004, na chamada "Era de Milton Friedman", esse crescimento foi, respectivamente, de 2,8% e de 63,6%.